Meus escritos não costumam ter nome, mas eu chamaria esse de Memento, porque ele fica perfeito para ler enquanto se ouve a música de mesmo nome de Jo Blankenburg.
Segue o link: https://www.youtube.com/watch?v=L9wVi2qvQw4
P.S. Todo o álbum Kaleidoscope (de onde vem essa música) é lindo e tocante. Recomendo.
Você se foi e o inverno chegou.
Gradualmente o frio foi descendo pela cidade. As pessoas começaram a se rercolher para suas casas, fugindo à bruteza do vento. Depois de um tempo começou a gear. As crianças voltaram à rua para se divertir com a delicadeza dos flocos de neve que pintavam as ruas, os telhados, as janelas. Sozinha, eu pensava sentir mais frio que todos, apesar de sequer sair de casa.
Os dias passaram, trazendo a tempestade. Os que haviam sido mais espertos viajaram para encontrar parentes ao sul, umas férias de uma última hora. O vento uivava, esforçando-se para penetrar nos lares por qualquer brecha que encontrasse. Lá fora era apenas cinza e frio. As camadas de neve tão altas que só se podia ver por metade da janela da sala, onde passei a maior parte do tempo sentada frente à lareira, afogando-me nas cobertas e na tristeza, quase que no mesmo compasso que o clima afundava minha casa.
Então, numa tarde dessas decidi voltar ao meu quarto. Subi ao primeiro andar e empurrei a porta. Lá estava minha cama ainda bagunçada da última vez que dormimos juntos. Levantei os lençóis e comecei arrumá-la. Assim que terminei, o sol já tinha se posto, então deitei para observar as estrelas pela clarabóia acima. Apoiei minha cabeça no travesseiro e em segundos adormeci com os vestígios do seu perfume que cheiravam a nostalgia.
Acordei no dia seguinte com o sol da manhã iluminando meu rosto. Me espreguicei e levantei, descansada Não me sentia tão disposta há dias. Resolvi até mesmo me fazer um café da manhã, com bolo e café quentinhos. Comi tudo sem pressa, observando o vazio pela janela da cozinha. Notei que a tempestade não mais açoitava a vizinhança, então peguei um casaco e resolvi sair.
Assim que abri a porta senti uma leve tontura diante de toda aquela brancura refletindo a luz do sol. Acostumei os olhos e pisei na neve macia, descalça. Adorava a sensação gelada nos meus pés. Caminhei até o quintal, de onde podia ver o vale lá embaixo, as àrvores quase completamente imóveis salpicadas de tempestade. Sentei, e cruzei as pernas. Fechei os olhos e respirei fundo trêz vezes, até perceber uma coisa que ainda não tinha dado atenção: o silêncio. Havia um silêncio tão profundo que era quase palpável. Tudo estava tão imóvel que parecia que alguém havia pausado a cena. Tão quieto que eu poderia ouvir meu próprio coração bater. Respirei fundo mais uma vez, os olhos no horizonte. Sorri. Sim, meu coração estava lá batendo; em toda a quietude, o único som que eu ouvia era o dele. Era quase como se a natureza tivesse ficado em silêncio para me dizer que tudo ia ficar bem. Agradeci mentalmente por isso.
Tudo estava bem.- Bippa
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